‘Brincando com vidas’: o plano de vacina COVID do Brasil está mergulhado no caos - Dezembro 2021

Lutas políticas internas, planejamento aleatório e um nascente movimento antivacinas deixaram o Brasil, que sofreu a segunda maior taxa de mortalidade da pandemia, sem um programa de vacinação claro

FILE - Mulher participa de ensaio em São Paulo da vacina CoronaVac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac Biotech, no sábado, 12 de dezembro de 2020. (Victor Moriyama / The New York Times)

Written by Ernesto Londoño, Manuela Andreoni and Letícia Casado (Ernesto Londoño and Manuela Andreoni reported from Rio de Janeiro, and Letícia Casado from Brasília.)

Enquanto os países apressavam seus preparativos para inocular cidadãos contra o coronavírus, o Brasil, com seu programa de imunização de renome mundial e uma robusta capacidade de fabricação de produtos farmacêuticos, deveria estar em uma vantagem significativa.

Mas lutas políticas internas, planejamento aleatório e um movimento antivacinas nascente deixaram o país, que sofreu o segundo maior número de mortes da pandemia, sem um programa de vacinação claro. Seus cidadãos agora não têm noção de quando podem obter alívio de um vírus que colocou o sistema de saúde pública de joelhos e esmagou a economia.

Eles estão brincando com vidas, disse Denise Garrett, pesquisadora de saúde pública americana no Sabin Vaccine Institute, que trabalha para expandir o acesso às vacinas. É um crime limítrofe.

Os especialistas tinham esperança de que as proezas da imunização do Brasil lhe permitissem lidar com o fim da pandemia melhor do que com o início.

Logo depois que o COVID-19 foi identificado pela primeira vez no país, em fevereiro, o Brasil se tornou um epicentro da crise global de saúde. O presidente Jair Bolsonaro rejeitou as evidências científicas, chamou o vírus de um resfriado miserável que não justificava o fechamento da maior economia da região e repreendeu os governadores que impuseram medidas de quarentena e fechamento de empresas.

À medida que os esforços de vacinação estão em andamento na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, dando às suas populações a chance de começar a imaginar uma vida pós-pandemia, o momento encontrou as autoridades brasileiras mais uma vez despreparadas e atoladas em disputas ruidosas sobre a política de vacinas.

O Ministério da Saúde apresentou na semana passada um plano de vacinação em resposta a uma ordem do Supremo Tribunal Federal. O plano estabelecia a ordem em que os grupos vulneráveis ​​seriam vacinados, mas faltava um cronograma detalhado e uma estimativa clara de quantas doses estarão disponíveis. O ministério havia informado que pretendia iniciar a campanha de vacinação em março.

Dias depois do anúncio, o ministério da saúde ainda estava lutando para fazer pedidos a fornecedores de vacinas sobrecarregados. Funcionários do ministério também enfrentaram dúvidas sobre por que o país não tinha seringas e frascos suficientes para embarcar na ambiciosa campanha de vacinação, necessária para cobrir um país com 210 milhões de habitantes, onde mais de 180.000 sucumbiram ao vírus.

Além disso, a Anvisa, agência reguladora de saúde do Brasil, ainda não aprovou nenhuma vacina contra o coronavírus para uso geral.

As pessoas vão entrar em pânico se o Brasil continuar atrasado em ter um plano, uma estratégia clara e objetiva, disse Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, no dia 7 de dezembro, alertando que o Congresso tomará as rédeas do processo se o ramo executivo continuou a tatear.

A discussão sobre o acesso e a segurança da vacina também se tornou atolada em uma disputa partidária.

Bolsonaro criticou repetidamente a vacina CoronaVac, que está sendo desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac Biotech, e rejeitou o plano de seu ministério da saúde de comprar 46 milhões de doses.

Em vez disso, o governo confiou na vacina desenvolvida pela AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, que está atrasada na corrida para receber a aprovação dos reguladores de saúde.

A cruzada do presidente contra a vacina chinesa criou uma oportunidade política de ouro para um de seus principais rivais políticos, João Doria, governador do estado de São Paulo. Doria negociou diretamente com os chineses as doses da vacina, que está sendo desenvolvida em parceria com o centro de pesquisas do Butantan, de São Paulo.

Doria disse que as autoridades estaduais não podiam esperar que o governo federal, que passou por três ministros da saúde ao longo da pandemia, agisse em conjunto.

Não podemos esperar até março para começar a usar uma vacina que pode ser usada em janeiro, disse ele em entrevista. É consenso no estado de São Paulo e em outros estados que a espera representa um grande risco para a população, afetando as taxas de mortalidade e o sistema público de saúde.

Doria prometeu a seus constituintes na semana passada que São Paulo pretende começar a vacinar as pessoas no final de janeiro - uma promessa que depende da aprovação dos reguladores federais, que ainda não receberam os resultados finais dos estudos sobre a eficácia e segurança da vacina.

O gabinete do presidente condenou o plano de Doria de começar a vacinar as pessoas em janeiro, chamando-o de populismo barato e irresponsável.

A disputa cada vez mais acirrada entre Doria, que deve concorrer à presidência em 2022, e o governo federal politizou perigosamente os planos de vacinação no Brasil.

Carla Domingues, pesquisadora de saúde pública que comandou o programa de imunização do Brasil até o ano passado, lamentou que a vacina contra o coronavírus tenha se tornado uma questão partidária.

Isso nunca aconteceu nos esforços de imunização, disse ela. Isso vai deixar as pessoas confusas. É surreal.